papelpassado

a ver com poesia

20

de
outubro

travessia

contar a história

dessas marcas a ferro

ideogramas a fogo

tantas inflamações

na alma

 

mais de cinco

os oceanos atravessados

a nado costas

por medo

de que o céu desabasse

e tempo não houvesse

para contrições

 

sem falar no estigma

insistindo em afirmar

a gravidade

da lágrima

 

agora essas cicatrizes

brasões, relíquias

ansitias vitalícias

senha para o que der

se vier

30

de
junho

toda amizade

 

 

na medula de toda amizade

vácuos despreenchem lacunas

 

na história de toda amizade

o tempo

tensinona laços

e distende nós

 

toda amizade se depura

no sangue frio

do desbotamento

onde o (des)tino

é monobrista

 

a eternidade dos sentimentos

é seu permanente desfazer-se

21

de
abril

hábito

cravo unhas

no que sobrou

de tua liberdade

 

ímpar perfeição

minha mão

em concha

 

molde

de teu alto

relevo

18

de
março

picadeiro

 

uma alegria encomendada

por uma arquibancada deserta

banaliza o inesperado

 

entre um vaso de porcelana senil

que colhe as lágrimas do leão

e os destroços

de sua própria assombração

jaz um ex-palhaço

 

há máscaras dilatando

a fiação do tempo

na dança dos trapézios

decadentes.

 

28

de
agosto

fé

 

se não soubesse as luzes

se não cogitasse esperanças

se mantivesse a amargura

se só gozasse discrepância

  

o que seria de mim, deus meu,

gota-dágua no espaço

núcleo- duro do desengano

matriz do descompasso?

 

 

5

de
agosto

até o fim

a paixão é um campo

púrpura-afogueado

que tem fim

onde o olhar alcança

 

o fim

é explicado

pela teoria da evolução

dos sentimentos:

um dia,

a amizade, o amor

a indiferença ou o ódio

colocam-lhe ponto final.

15

de
julho

À moda da casa

  

quando essas portas de agora

se abrem aos deslizes do tempo

o desassossego noturno

do ruído daqueles passos

sobre o assoalho vermelho-esquecimento

reconstrói-se no calendário

imperfeito do sempre

somando dias… estradas… quintais…

pedras… preciosas mentiras

vozes… olhares… entranhas…

e a casa

a outros fantasmas

que servem Saudades

pequenas… médias… e grandes.

 

 

 

29

de
abril

vitrais

vitrais que insendeiam minha tarde

eu os vi brotarem azulados

do ventre de minha serra cativa

 

era um domingo revestido da melancolia

comum a todas as tardes de domingo

havia avô, havia mãe, havia tias…

escorria a vida lenta dos poucos anos

e eu era feliz e eu sabia

 

só não previa que aquela luz

como um farol que nunca gira

seguiria a passeata do tempo

pelas veredas de outros eus

azulando todas as tardes sombrias

de sábados, domingos e outros dias.

11

de
abril

MÃE É DEZ!

mãe é fábrica de bem-quereres. acolhe todos os sentimentos, alimentando-os de detalhes. e se enreda nas sutilezas dos aconchegos. enxerga delicadezas em estado bruto e transforma descortesias em pétalas.

  

mãe habita jardins onde cuida da fertilidade dos afetos; para ela, filho é flor, que se desespinha na habilidade de seu cultivo.

  

toda mãe é artesã: vive da manufatura do amor desconforme. extrapola rotinas e fabrica surpresas em série. é alquimista quase ao contrário: transforma ouro em singeleza. é muito provável que tenham sido as mães que inventaram as palavras apego, essência, solicitude…

  

só mãe sabe a mágica de não ter alma e sim ser alma. que importa o corpo, se é o espírito que hospeda inquietações e dúvidas de seu bendito fruto? a pele é o que menos conta; todo amor vem do útero de seu olhar e se materializa, cativante, na arquitetura de seus abraços.

  

mãe comporta mistérios. esfinges que se decifram na tagarelice de seu gesto mais discreto. mãe fala, mas nem seria necessário: a palavra apenas repete o signo que seu silêncio desnuda.

  

mãe é a única existência anterior ao nada; e provavelmente o único sobrevivente a todos os fins. mãe é permanência, infinitude, exageração. por isso, viram luas, sóis, planetas, constelações. dizem que a via láctea é um grande clube (da luluzinha) de mães…

  

mãe desnorteia dicionários e jardins, transforma nãos em sins, dissabores em contentamentos, comigo-ninguém-pode em bem-me-quer…

 

só mãe reorganiza o universo depois que passam os vendavais. apenas ela conhece em que gaveta se arquivou o perdão que remete à esperança.

 

uma mãe é, sozinha, uma casa cheia. sabe alegrias, compreende encantamentos, domina preenchimentos… uma mãe é muito, é exatamente a imensidão, é o cerne do tudo, é o conteúdo do ilimitado, é super, ultra, mega, hiper…

 

minha filha disse outro dia: "Mãe é dez!" quase discordo porque não temo o infinito: mãe é cem, é mil, é mais…

  

todo mundo sabe que mãe não é mulher … porque é deus.

 

um dia, numa história que sonhei, a morte devolvia o homem ao ventre de sua mãe. não havia mais incertezas, melancolias, angústias; e o tempo era apenas um brinquedo fácil de desmontar…

 

 

(Uma tentativa de Homenagear a Minha Mãe. Hoje faz dez anos que ela nos deixou).

8

de
abril

mensagem

  

já não há o que fazer

com esse silêncio

  

fica ssim

buzinando assombros

alumiando apagões

blecautes mnemônicos

reinventando a história

entre grandes navegações

e viagens siderais

os gritos criptografados

aos ouvidos de deus

 

 

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