papelpassado

a ver com poesia

29

de
abril

vitrais

vitrais que insendeiam minha tarde

eu os vi brotarem azulados

do ventre de minha serra cativa

 

era um domingo revestido da melancolia

comum a todas as tardes de domingo

havia avô, havia mãe, havia tias…

escorria a vida lenta dos poucos anos

e eu era feliz e eu sabia

 

só não previa que aquela luz

como um farol que nunca gira

seguiria a passeata do tempo

pelas veredas de outros eus

azulando todas as tardes sombrias

de sábados, domingos e outros dias.

11

de
abril

MÃE É DEZ!

mãe é fábrica de bem-quereres. acolhe todos os sentimentos, alimentando-os de detalhes. e se enreda nas sutilezas dos aconchegos. enxerga delicadezas em estado bruto e transforma descortesias em pétalas.

  

mãe habita jardins onde cuida da fertilidade dos afetos; para ela, filho é flor, que se desespinha na habilidade de seu cultivo.

  

toda mãe é artesã: vive da manufatura do amor desconforme. extrapola rotinas e fabrica surpresas em série. é alquimista quase ao contrário: transforma ouro em singeleza. é muito provável que tenham sido as mães que inventaram as palavras apego, essência, solicitude…

  

só mãe sabe a mágica de não ter alma e sim ser alma. que importa o corpo, se é o espírito que hospeda inquietações e dúvidas de seu bendito fruto? a pele é o que menos conta; todo amor vem do útero de seu olhar e se materializa, cativante, na arquitetura de seus abraços.

  

mãe comporta mistérios. esfinges que se decifram na tagarelice de seu gesto mais discreto. mãe fala, mas nem seria necessário: a palavra apenas repete o signo que seu silêncio desnuda.

  

mãe é a única existência anterior ao nada; e provavelmente o único sobrevivente a todos os fins. mãe é permanência, infinitude, exageração. por isso, viram luas, sóis, planetas, constelações. dizem que a via láctea é um grande clube (da luluzinha) de mães…

  

mãe desnorteia dicionários e jardins, transforma nãos em sins, dissabores em contentamentos, comigo-ninguém-pode em bem-me-quer…

 

só mãe reorganiza o universo depois que passam os vendavais. apenas ela conhece em que gaveta se arquivou o perdão que remete à esperança.

 

uma mãe é, sozinha, uma casa cheia. sabe alegrias, compreende encantamentos, domina preenchimentos… uma mãe é muito, é exatamente a imensidão, é o cerne do tudo, é o conteúdo do ilimitado, é super, ultra, mega, hiper…

 

minha filha disse outro dia: "Mãe é dez!" quase discordo porque não temo o infinito: mãe é cem, é mil, é mais…

  

todo mundo sabe que mãe não é mulher … porque é deus.

 

um dia, numa história que sonhei, a morte devolvia o homem ao ventre de sua mãe. não havia mais incertezas, melancolias, angústias; e o tempo era apenas um brinquedo fácil de desmontar…

 

 

(Uma tentativa de Homenagear a Minha Mãe. Hoje faz dez anos que ela nos deixou).

8

de
abril

mensagem

  

já não há o que fazer

com esse silêncio

  

fica ssim

buzinando assombros

alumiando apagões

blecautes mnemônicos

reinventando a história

entre grandes navegações

e viagens siderais

os gritos criptografados

aos ouvidos de deus

 

 

1

de
abril

baile à fantasia

  

todo espelho reflete

o ancoradouro do tempo

balé de rugas

o riso grisalho

olhares camicases:

tropel… desabrigo… turbilhão.

  

cataclismas regados a álcool

enuviando o cotidiano

na reeleição de enganos

desenganos… de enganos…

  

publique-se saldo e extrato:

nesta senda há somente contramão

e a saída dá para um lado inexato

e vão.

 

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