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vitrais que insendeiam minha tarde
eu os vi brotarem azulados
do ventre de minha serra cativa
era um domingo revestido da melancolia
comum a todas as tardes de domingo
havia avô, havia mãe, havia tias...
escorria a vida lenta dos poucos anos
e eu era feliz e eu sabia
só não previa que aquela luz
como um farol que nunca gira
seguiria a passeata do tempo
pelas veredas de outros eus
azulando todas as tardes sombrias
de sábados, domingos e outros dias.
mãe é fábrica de bem-quereres. acolhe todos os sentimentos, alimentando-os de detalhes. e se enreda nas sutilezas dos aconchegos. enxerga delicadezas em estado bruto e transforma descortesias em pétalas.
mãe habita jardins onde cuida da fertilidade dos afetos; para ela, filho é flor, que se desespinha na habilidade de seu cultivo.
toda mãe é artesã: vive da manufatura do amor desconforme. extrapola rotinas e fabrica surpresas em série. é alquimista quase ao contrário: transforma ouro em singeleza. é muito provável que tenham sido as mães que inventaram as palavras apego, essência, solicitude...
só mãe sabe a mágica de não ter alma e sim ser alma. que importa o corpo, se é o espírito que hospeda inquietações e dúvidas de seu bendito fruto? a pele é o que menos conta; todo amor vem do útero de seu olhar e se materializa, cativante, na arquitetura de seus abraços.
mãe comporta mistérios. esfinges que se decifram na tagarelice de seu gesto mais discreto. mãe fala, mas nem seria necessário: a palavra apenas repete o signo que seu silêncio desnuda.
mãe é a única existência anterior ao nada; e provavelmente o único sobrevivente a todos os fins. mãe é permanência, infinitude, exageração. por isso, viram luas, sóis, planetas, constelações. dizem que a via láctea é um grande clube (da luluzinha) de mães...
mãe desnorteia dicionários e jardins, transforma nãos em sins, dissabores em contentamentos, comigo-ninguém-pode em bem-me-quer...
só mãe reorganiza o universo depois que passam os vendavais. apenas ela conhece em que gaveta se arquivou o perdão que remete à esperança.
uma mãe é, sozinha, uma casa cheia. sabe alegrias, compreende encantamentos, domina preenchimentos... uma mãe é muito, é exatamente a imensidão, é o cerne do tudo, é o conteúdo do ilimitado, é super, ultra, mega, hiper...
minha filha disse outro dia: "Mãe é dez!" quase discordo porque não temo o infinito: mãe é cem, é mil, é mais...
todo mundo sabe que mãe não é mulher ... porque é deus.
um dia, numa história que sonhei, a morte devolvia o homem ao ventre de sua mãe. não havia mais incertezas, melancolias, angústias; e o tempo era apenas um brinquedo fácil de desmontar...
(Uma tentativa de Homenagear a Minha Mãe. Hoje faz dez anos que ela nos deixou).
já não há o que fazer
com esse silêncio
fica ssim
buzinando assombros
alumiando apagões
blecautes mnemônicos
reinventando a história
entre grandes navegações
e viagens siderais
os gritos criptografados
aos ouvidos de deus
todo espelho reflete
o ancoradouro do tempo
balé de rugas
o riso grisalho
olhares camicases:
tropel... desabrigo... turbilhão.
cataclismas regados a álcool
enuviando o cotidiano
na reeleição de enganos
desenganos... de enganos...
publique-se saldo e extrato:
nesta senda há somente contramão
e a saída dá para um lado inexato
e vão.